Por Denise Nunes
1)Influências epistemológicas
a)Considero importante lembrar que Bourdieu é um dos autores que elaboraram teorias de síntese, ou seja, para ele as teorias clássicas em suas abordagens macro e micro sociológicas seriam insuficientes para os estudos da sociedade e seria necessário uma abordagem macro E micro de forma simultânea e não isolada, como acontecia nos clássicos. Por este motivo é tão evidente a influência dos autores clássicos em seus escritos.
b)Fica mais claro para alguns leitores a influência de Durkheim nas obras de Bourdieu, o que me parece algo um tanto previsível e legítimo; afinal, ambos eram franceses e naquele contexto a disputa por um lugar ao sol na academia não era (como parece não ser também hoje) nada fácil. Sendo assim, penso que nada mais coerente do que ser assimilado/lembrado junto a um clássico da área para se começar a ter notoriedade. Diria que Bourdieu só estava colocando em prática o que explicou em algum momento da sua teoria.
c)Tentativa de comparação entre os autores Bourdieu e Latour (e suas obras). Quanto a isso, penso que os objetivos (principalmente os iniciais) de ambos eram diferentes. Bourdieu pretendia teorias de síntese (em última instância) e Latour, estudos de caso, além de seu lugar ao sol. Acredito que ambos os trabalhos chamam a atenção do leitor para focos diferentes da pesquisa. Se eles fazem críticas, elogios ou simplesmente “destroem” os trabalhos um do outro, eis a vida acadêmica! Eis o fazer ciência! Nos termos de Bourdieu, podemos dizer que se trata de uma disputa no campo, e nos termos de Latour trata-se de uma “batalha” discursiva (quase) que pelo convencimento. Ok! Simplifiquei quase ao nível do achincalhamento e peço que me perdoem. Mas o que eu quis dizer é que considero ambos os autores e obras incomparáveis no sentido de se tentar uma avaliação (boa ou ruim) e, antes de mais nada, que o debate público a respeito faz com que as “luzes dos holofotes” da academia dirijam-se a eles, e nesse momento, vigora um velho ditado: “quem não é visto não é lembrado”. Dessa forma. ambos passam a ter visibilidade. Mas isso talvez seja apenas mais um de meus pressupostos simplistas...
2)Teorias de síntese
Sobre isso gostaria de lembrar que Bourdieu não foi o único nessa empreitada. Anthony Giddens se deu ao mesmo trabalho (cito apenas ele por ser um dos autores da aula seguinte a de Bourdieu). Ambos falam nas teorias da estruturação, ambos têm conceitos comuns, embora diferentemente enunciados. Em ambas as teorias encontraremos as noções de agentes, estrutura e de reflexividade, por exemplo. É interessante prestar atenção nesses dois modos de fazer teoria e nas diferenças que cada uma apresenta. São autores de contextos diferentes que buscam algo comum: teorias de síntese. Veremos também que cada qual apresenta o peso de um clássico diferente. Assim como mencionamos a presença das idéias de Durkheim em Bourdieu, penso que salta aos olhos a perspectiva hermenêutica de Weber nas idéias de Giddens. Seria legal focar também como os autores percebem o senso comum... Enfim! Lembro que antes de julgar qualquer um dos autores contemporâneos seria legal relembrar as aulas iniciais da disciplina, que tinham seu quê de epistemologia; afinal, as idéias não saem do nada e é sempre bom evitar o tal anacronismo do qual falava Skinner: estes autores escreveram de acordo com determinadas leituras e/ou influências e voltados para seus respectivos contextos. Assim, penso que não nos cabe julgá-los valorativamente ou simplesmente dizer que eles não pensaram na realidade brasileira (ou qualquer outra) dos dias atuais. Creio que “talvez” essa não fosse a intenção deles.
Este blog visa reunir textos e comentários dos alunos da disciplina Sociologia da Ciência e da Técnica, oferecida no segundo semestre de 2010 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSC, sob a coordenação da Profª Tamara Benakouche. A disciplina tem como objetivo analisar a produção da ciência e a inovação tecnológica como elementos centrais para o entendimento da dinâmica social moderna. Nesse sentido, visará o estudo de questões teóricas - colocadas por autores clássicos e contemporâneos - e práticas, postas por processos sócio-políticos mais recentes. Adotando a perspectiva construtivista, procurará desenvolver uma crítica a análises que sustentam a natureza apolítica da pesquisa científica e o determinismo da técnica, resgatando a importância de novas formas de cidadania científica e das redes sociotécnicas.
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terça-feira, 2 de novembro de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Relatos da Sessão 3 - 25/8/10
Relato da Sessão 3 - Meios de Produção, Divisão do Trabalho e Racionalidade Moderna como Dimensões da Tecnologia
Por Denise M. Nunes
➢ Questão inicial da aula ↔ frase para se pensar: “Responder a questão sobre os efeitos de uma determinada tecnologia sobre a sociedade exige que se tenha uma boa teoria de como a sociedade funciona” (MACKENZIE; WAJCMAN, 1985). Existe uma definição do termo tecnologia de acordo com o grupo que está fazendo uso da mesma.
➢ Marx:
Não se coloca contra as forças de trabalho. O problema para ele não é a tecnologia em si, mas as relações de propriedade que ela envolve. Examinou a lógica interna da tecnologia. Sua fonte de dados é a economia.
O elemento determinante das transformações é o mercado – estas implicam demandas que levam à diferenciação dos mercados – que envolve relações dinâmicas. Produção dos meios de produção → uso da tecnologia no capital. É otimista com relação à idéia de progresso.
Não considera o indivíduo em sua análise, apenas as classes.
Seu argumento central no livro “Manifesto Comunista” trata de uma tecnologia que transforma o mundo e que está por trás de uma classe.
➢ Durkheim:
Consciência coletiva e consciência individual.
Solidariedade mecânica e orgânica.
A tecnologia foi criada para melhorar as condições de trabalho do trabalhador. Projeção de futuro → organização profissional. Vai ocorrendo um processo de individualização através da divisão do trabalho. Assim o indivíduo vai emergindo. Sua fonte de dados é a antropologia.
Opõe-se ao conceito de alienação em Marx. É otimista com relação ao uso da técnica.
➢ Weber:
Importância da técnica → necessidade de racionalizar os ganhos foi importante para o espírito do capitalismo. Necessidade de usar racionalmente a natureza e a inteligência humana.
Ascetismo levado para a vida profissional.
Produção em série → possível através do uso de máquinas.
Gaiola de ferro → manto das preocupações com bens materiais.
Por Rafael Mattiello
• A Sociologia da Ciência e da Técnica, como a Sociologia Geral, se estrutura a partir das contribuições teóricas dos chamados “pais” desta disciplina. Assim, nessa sessão foram colocados em ponderação diversos aspectos relacionados à questão da técnica e da tecnologia, tendo em vista a análise de: O Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels; O Capital, escrito por Marx; A Divisão do Trabalho Social, de Durkheim; e A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Weber. Estes textos clássicos não tratam de maneira contundente da problemática de pesquisa “tecnologia”, mas conceituam diversas questões correlacionadas ao assunto ao desenvolver as bases de uma disciplina essencial à compreensão do funcionamento da sociedade: a Sociologia. No começo da sessão, a professora tratou das diferentes dimensões do significado de "tecnologia" e das diferentes acepções deste termo.
• O primeiro autor analisado foi Marx: a) para ele a tecnologia não é neutra, mas serve aos interesses da classe dominante, e não está favorecendo a civilização humana como um todo; b) Marx é determinista com relação à técnica? Existem fortes argumentos para dizer que sim, mas a maioria dos autores prefere acreditar que não; para eles, Marx introduz diversos elementos sofisticados à sua teoria que negariam esse determinismo; c) Marx examinou a lógica interna da tecnologia descrevendo o processo tecnológico, onde o trabalho é intensificado pelo intermédio da introdução de novas técnicas.
• Num segundo momento, discutiu-se Durkheim: a) Solidariedade mecânica é o contrário do que prega Marx: parte-se de uma sociedade igualitária, em rumo crescente a uma maior diversificação; b) A divisão do trabalho vai levando a uma diversificação, mas com solidariedade. No início não existiam habilidades especializadas. Com a especialização do trabalho, as pessoas já não se tornam tão intercambiáveis; existe uma individualidade maior. Evolutivamente, vai havendo outro tipo de solidariedade: a solidariedade orgânica; c) Marx e Durkheim se aproximam na idéia de como a máquina interliga a sociedade.
• Finalmente, debateu-se Max Weber: a) A questão principal diz respeito à sua tese de que a racionalidade ocidental, especificamente aquela resultante da ética protestante, foi determinante no desenvolvimento do capitalismo; b) Foi destacada a ideia de usar racionalmente a natureza e a inteligência humana; c) Foi discutido que a preocupação com os meios materiais se torna uma "prisão de ferro".
Por Denise M. Nunes
➢ Questão inicial da aula ↔ frase para se pensar: “Responder a questão sobre os efeitos de uma determinada tecnologia sobre a sociedade exige que se tenha uma boa teoria de como a sociedade funciona” (MACKENZIE; WAJCMAN, 1985). Existe uma definição do termo tecnologia de acordo com o grupo que está fazendo uso da mesma.
➢ Marx:
Não se coloca contra as forças de trabalho. O problema para ele não é a tecnologia em si, mas as relações de propriedade que ela envolve. Examinou a lógica interna da tecnologia. Sua fonte de dados é a economia.
O elemento determinante das transformações é o mercado – estas implicam demandas que levam à diferenciação dos mercados – que envolve relações dinâmicas. Produção dos meios de produção → uso da tecnologia no capital. É otimista com relação à idéia de progresso.
Não considera o indivíduo em sua análise, apenas as classes.
Seu argumento central no livro “Manifesto Comunista” trata de uma tecnologia que transforma o mundo e que está por trás de uma classe.
➢ Durkheim:
Consciência coletiva e consciência individual.
Solidariedade mecânica e orgânica.
A tecnologia foi criada para melhorar as condições de trabalho do trabalhador. Projeção de futuro → organização profissional. Vai ocorrendo um processo de individualização através da divisão do trabalho. Assim o indivíduo vai emergindo. Sua fonte de dados é a antropologia.
Opõe-se ao conceito de alienação em Marx. É otimista com relação ao uso da técnica.
➢ Weber:
Importância da técnica → necessidade de racionalizar os ganhos foi importante para o espírito do capitalismo. Necessidade de usar racionalmente a natureza e a inteligência humana.
Ascetismo levado para a vida profissional.
Produção em série → possível através do uso de máquinas.
Gaiola de ferro → manto das preocupações com bens materiais.
Por Rafael Mattiello
• A Sociologia da Ciência e da Técnica, como a Sociologia Geral, se estrutura a partir das contribuições teóricas dos chamados “pais” desta disciplina. Assim, nessa sessão foram colocados em ponderação diversos aspectos relacionados à questão da técnica e da tecnologia, tendo em vista a análise de: O Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels; O Capital, escrito por Marx; A Divisão do Trabalho Social, de Durkheim; e A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Weber. Estes textos clássicos não tratam de maneira contundente da problemática de pesquisa “tecnologia”, mas conceituam diversas questões correlacionadas ao assunto ao desenvolver as bases de uma disciplina essencial à compreensão do funcionamento da sociedade: a Sociologia. No começo da sessão, a professora tratou das diferentes dimensões do significado de "tecnologia" e das diferentes acepções deste termo.
• O primeiro autor analisado foi Marx: a) para ele a tecnologia não é neutra, mas serve aos interesses da classe dominante, e não está favorecendo a civilização humana como um todo; b) Marx é determinista com relação à técnica? Existem fortes argumentos para dizer que sim, mas a maioria dos autores prefere acreditar que não; para eles, Marx introduz diversos elementos sofisticados à sua teoria que negariam esse determinismo; c) Marx examinou a lógica interna da tecnologia descrevendo o processo tecnológico, onde o trabalho é intensificado pelo intermédio da introdução de novas técnicas.
• Num segundo momento, discutiu-se Durkheim: a) Solidariedade mecânica é o contrário do que prega Marx: parte-se de uma sociedade igualitária, em rumo crescente a uma maior diversificação; b) A divisão do trabalho vai levando a uma diversificação, mas com solidariedade. No início não existiam habilidades especializadas. Com a especialização do trabalho, as pessoas já não se tornam tão intercambiáveis; existe uma individualidade maior. Evolutivamente, vai havendo outro tipo de solidariedade: a solidariedade orgânica; c) Marx e Durkheim se aproximam na idéia de como a máquina interliga a sociedade.
• Finalmente, debateu-se Max Weber: a) A questão principal diz respeito à sua tese de que a racionalidade ocidental, especificamente aquela resultante da ética protestante, foi determinante no desenvolvimento do capitalismo; b) Foi destacada a ideia de usar racionalmente a natureza e a inteligência humana; c) Foi discutido que a preocupação com os meios materiais se torna uma "prisão de ferro".
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